Caderno de bolso 01 · Ficção original de estúdio
Uma luz para a sala de baixo
Escrita original de estúdio criada para este site. Estas obras são conceitos criativos, não trechos dos manuscritos de Ori Peretz nem declarações atribuídas a colaboradores externos.
A luminária chegou em um caixote alto o bastante para uma pessoa. Nera ajudou o motorista a passá-la pela porta da oficina, depois ficou olhando enquanto ele recolhia as lascas da soleira. Sob a palha havia uma haste de bronze, três braços curvos e uma cúpula montada com pedaços estreitos de vidro âmbar. Alguém havia amarrado uma etiqueta numerada ao seu pescoço. O cordão era novo; a luminária era velha havia muito tempo.
A casa de leilões a queria pronta até sexta-feira. Limpar o metal, substituir o vidro danificado, retirar os restos de um aviso de papel da base. A folha de instruções a descrevia como uma luminária decorativa de um espaço municipal. Nera conhecia a sala. Tinha estudado ali no inverno em que o aquecimento do seu apartamento parou de funcionar. Na hora de fechar, o responsável passava de mesa em mesa com uma régua de madeira, dando uma batida ao lado do livro de cada leitor.
A sala de leitura havia fechado em março. Uma placa atravessada nas portas anunciava melhorias sem dizer quais. Por uma fresta, Nera vira as mesas compridas empilhadas de lado. Agora uma das luminárias estava em sua bancada. Sem a sala ao redor, o objeto parecia quase constrangedoramente elaborado. Folhas de louro subiam pela haste. Uma pequena mariposa de bronze repousava sob a cúpula, escondida de quem estivesse em pé. Ela havia se sentado sob aquela luz durante meses sem saber.
O vidro quebrado estava na parte de trás. Uma ramificação fina de rachaduras partia de um parafuso, mantida unida por uma película de adesivo amarelado. O remendo abaixo fora feito com vidro comum de janela. Na bancada parecia grosseiro. Mas, quando ela colocou uma luz dentro da cúpula, aquele pequeno remendo transparente projetou um retângulo nítido sobre a madeira. As peças de âmbar suavizavam todo o resto. Alguém havia consertado uma luminária de leitura para que um leitor pudesse enxergar.
Nera passou um pano úmido por baixo do papel na base. A maior parte do aviso se soltou como uma polpa cinzenta. Restaram quatro palavras: POR FAVOR DEIXEM ESTA. Ela se lembrou da mesa mais próxima da escada, onde um senhor costumava abrir diagramas de navios. Ele levava uma lupa pendurada em uma fita. Sempre que o responsável reorganizava os móveis, chegava cedo e punha a cadeira de volta sob a mesma luminária. Ela não conseguia lembrar seu nome.
Ao meio-dia, a casa de leilões ligou. Tinha encontrado um vidro igual? Tinha encontrado um parecido. Conseguiria fazer o conserto desaparecer? Isso levaria mais tempo. A mulher ao telefone disse que o comprador esperaria que a luminária estivesse completa. “Está completa”, disse Nera, olhando para o retângulo luminoso. A mulher esperou. Nera percebeu como suas palavras pouco ajudavam e prometeu enviar fotografias. Depois da ligação, pôs o vidro âmbar de reposição ao lado do remendo transparente.
Ela fotografou a cúpula à luz do dia e com a luminária acesa. Depois, a mariposa de bronze, o interruptor gasto e os restos do aviso. Na última imagem, colocou um livro aberto sob o trecho transparente. Enviou as fotos com duas opções de reparo e preços separados. Uma devolveria à cúpula um âmbar uniforme. A outra manteria a janela transparente e firmaria o vidro ao redor. Esperava que escolhessem a primeira opção.
Na tarde seguinte, uma mulher com o casaco escurecido pela chuva chegou à oficina. Ela vira as fotografias antes de o catálogo ir para a gráfica. - Dá para colocar numa mesa comum? - perguntou. Nera mediu a base. - Numa resistente. A mulher olhou ao redor da oficina, depois para a cúpula. Disse que se chamava Davin e que havia comprado a antiga padaria da rua Bell. Seu apartamento ficaria no andar de cima. A sala de baixo ainda estava por decidir.
Nera imaginou outra loja impecável: objetos bem afastados uns dos outros, preços escritos em letras muito pequenas. Davin tirou as luvas molhadas. Queria uma mesa para as pessoas que esperavam enquanto ela consertava suas roupas. Às vezes vinham com crianças. Às vezes ficavam depois que o trabalho terminava, porque não tinham nenhum lugar aonde precisassem ir. Um vizinho havia oferecido livros, embora ela estivesse preocupada com a umidade. “Pensei que uma boa luz poderia transformar aquilo em uma sala”, disse.
- Você sabe que ela foi alterada? - perguntou Nera. Davin indicou o vidro liso com a cabeça. - Foi dessa parte que eu gostei. Pôs a mão sob a cúpula e a girou lentamente até que o remendo transparente ficasse voltado para a cadeira. Na palma da mulher, a luz revelou uma fileira de pequenos furos ao lado da unha do polegar. Nera tinha as mesmas marcas de costurar cabeceados quando a oficina ainda aceitava trabalhos de encadernação. Ela pegou o segundo orçamento.
O leilão foi na quinta-feira. Davin teve seu lance superado duas vezes e ficou ao telefone mais tempo do que pretendia. Na manhã seguinte, voltou sem o recibo da luminária. - Caro demais - disse. Nera se sentiu tola por ter imaginado a sala de baixo inteira. Juntas, olharam para uma simples luminária de trabalho de ferro pendurada sobre a bancada. Estava à venda, embora Nera nunca tivesse colocado uma etiqueta nela. Davin perguntou se iluminaria uma mesa. Nera a acendeu.
Quem comprou a luminária de bronze escolheu o âmbar uniforme. Nera retirou o remendo transparente, embrulhou-o em papel de seda e o incluiu com o reparo concluído, junto com uma nota explicando onde ele estivera. Preservou o contorno do aviso de papel em seu relatório de estado. Às quatro horas, o caixote estava fechado. A oficina parecia menor sem sua luminária de trabalho de ferro. Ela trabalhou sob uma lâmpada nua até a terça-feira seguinte.
Na terça-feira à tarde, foi a pé até Bell Street levando uma pequena caixa de livros. A vitrine da antiga padaria havia sido limpa, mas as letras pintadas continuavam acima da porta. Lá dentro, um menino fazia exercícios de aritmética sob a luminária de ferro. Duas mulheres separavam botões em pires. Davin tinha encontrado uma mesa com uma perna curta e dobrado um quadrado de papelão para pôr embaixo dela. Levantou os olhos de um casaco e pediu a Nera que segurasse a manga.
Por algum tempo trabalharam sem falar. O menino afastou seu caderno para abrir espaço para a caixa. Nera pensou na mariposa de bronze viajando para algum lugar que nunca veria e no vidro transparente embalado junto dela. Esperava que lessem a nota. Então Davin virou um pouco a luminária, trazendo a costura rasgada à vista. Nera passou a linha pela agulha. Lá fora, a luz que restava se esvaía das letras da padaria. Dentro, havia o suficiente.
Fim.
Caderno de bolso 01 · studio-v1
